VISITE MINHAS REDES SOCIAIS           Ícone Ícone Ícone
Menu
 
 

 

 

BLOG DE ADRIANO FREITAS

 
Copiar Compartilhar
 
« Voltar para as publicações

PAREIDOLIA

2026-09-12
PAREIDOLIA

Falando em pareidolia, chegamos à morfologia da palavra, que vem do grego *para* (paralelo ou duplo) e *eidolon* (imagem); portanto, seria uma imagem paralela.

A pareidolia é o nome técnico dado ao fenômeno de enxergar algo onde não existe, de dar um significado a uma imagem que você está vendo, diferente daquele significado concreto que está lá.

Muita gente fica assustada, às vezes, quando conhece esse nome técnico, achando que é um problema ou um transtorno. Quando, na verdade, não é; é bastante normal, e nada mais é do que uma forma de interpretação e de trabalho do nosso cérebro.

Portanto, isso não representa nenhum problema, é perfeitamente normal. Só precisamos aprender a lidar com isso, porque em algumas situações o fenômeno se torna exagerado e a pessoa pode, por falta de conhecimento, atribuir certas formas a fenômenos paranormais ou religiosos, quando na verdade não são.

Isso pode, em alguns momentos, causar transtornos na vida da pessoa, apesar de não ser uma patologia. Nesses casos, a pessoa precisa se informar e se conscientizar para aprender a lidar com essas situações, principalmente naquelas em que o fenômeno se apresenta de forma muito exagerada.

Muitas pessoas podem não associar a pareidolia pelo nome, mas certamente já presenciaram o fenômeno, viram em algum jornal ou até passaram por isso, justamente pela normalidade e frequência com que o nosso cérebro ativa esses mecanismos de reconhecimento.

A pareidolia é aquele fenômeno em que conseguimos interpretar uma imagem de uma forma diferenciada. Quando olhamos para uma nuvem e nela vemos o rosto de alguém conhecido, isso nada mais é do que a pareidolia.

Da mesma forma — e garanto que várias pessoas já devem ter visto na internet —, manchas na parede que parecem um santo ou Jesus, ou um borrão de café com aparência de algum animal ou pessoa, tudo isso é pareidolia.

E por que ela se apresenta? Nosso cérebro, principalmente naqueles sobre tomada de decisão, busca a todo instante dar sentido às coisas que se passam. No caso do estímulo visual, ele quer o tempo todo encontrar significado em tudo o que vê.

Nessa busca por sentido, ele faz uso de experiências passadas, memórias, vivências e emoções. Todo esse conjunto de dados armazenados anteriormente é utilizado para dar sentido às novas imagens que observamos.

Portanto, o cérebro precisa estar a todo momento achando um porquê para os estímulos que recebe. Quando olhamos para algo, ele recorre a esse banco de memórias e busca o que pode se parecer com aquilo. Em seguida, seleciona esses elementos e nos faz ter a sensação de estar vendo tal objeto.

O fenômeno da pareidolia é exatamente isso. Vemos uma mancha ou um borrão que não faz sentido para o cérebro, pois está totalmente desconectado e aleatório. O cérebro então começa a remoer o banco de dados com nossas experiências passadas, buscando algo que faça sentido ali. Se não encontrar nada, tudo bem: ele nos dará a sensação de que aquilo é apenas uma mancha aleatória, você entenderá que é um borrão, e acabou.

Agora, se ele achar algo em nosso banco de recordações que se assemelhe muito àquele formato, mesmo não sendo igual, ele nos dará a sensação de que é exatamente aquilo que encontrou.

Assim, se olho para um borrão que tem um formato específico e, buscando em meu banco de memórias, o cérebro acha que ele se parece com o rosto de Jesus visto em livros de história, ele me dará a nítida sensação de ter visto o rosto de Jesus naquele borrão, quando na verdade é apenas mais uma mancha.

Essa busca por sentido é constante no nosso cérebro e não representa nenhum problema. Porém, para algumas pessoas, isso acaba afetando o dia a dia.

Por falta de informação, elas atribuem essas visões a fenômenos paranormais ou religiosos, direcionando toda a sua vida espiritual para isso, mudando a rotina diária e criando crenças em torno de fatos que na verdade não existem.

Deixando de lado a questão espiritual, é fato que muitas dessas situações não têm relação com o sagrado, tratando-se apenas de um fenômeno de pareidolia.

Nesses casos, as pessoas acabam exagerando o aspecto espiritual ou paranormal. Isso pode começar a alterar a rotina e o dia a dia de alguém simplesmente por falta de informação sobre o que está acontecendo.

Portanto, antes de atribuir certas visões a questões espirituais ou místicas, é importante verificar se não estamos diante de uma ilusão causada pela pareidolia.

Vale ressaltar que, apesar de a palavra estar semanticamente ligada a imagens, pela sua morfologia, a pareidolia se estende a tudo aquilo que interpretamos de maneira diferente da realidade concreta.

Portanto, não se restringe apenas a imagens; ocorre também com áudios. Quantas vezes já ouvimos a história de que um disco da Xuxa, tocado ao contrário, conteria mensagens diabólicas?

Eu já vi vídeos em que a pessoa colocava um disco da Xuxa ao contrário e aparecia uma legenda dizendo o que estaria sendo falado naquele trecho. Ao assistir ao vídeo, você tinha a sensação clara de que aquelas frases estavam sendo ditas. Porém... 

Isso acontecia por indução. O nosso cérebro era induzido pelas legendas colocadas no vídeo. Provavelmente, quem produziu o material teve a sensação, através da pareidolia, de que aquelas frases estavam sendo ditas e acabou legendando o vídeo.

A partir desse momento, o simples fato de assistir e ler induzia as pessoas a darem o sentido da leitura ao som que estavam ouvindo. Em alguns momentos, os chiados e os sons ao contrário até lembravam alguns tons de palavras, mas não eram aquelas palavras com clareza. Contudo, a legenda induzia o ouvinte a acreditar que era aquilo.

Se você fizer o experimento de mostrar o vídeo com legenda para um grupo, eles concordarão que aquilo estava sendo dito. Porém, se você pegar o mesmo vídeo, cobrir as legendas e deixar um grupo similar ouvir apenas o áudio, eles não serão capazes de identificar nenhuma frase legível ou audível.

Isso deixa claro que há uma indução por conta das legendas. Entramos agora em histórias e questões que, embora algumas ainda estejam sob análise e pesquisa, são bastante curiosas para ilustrar o tema.

Existe uma história do tempo da colonização das Américas que relata que, quando os europeus chegaram, os nativos simplesmente não enxergavam as caravelas chegando ao mar. Eles viam coqueiros, pássaros, a água, o céu e as nuvens, mas aquelas caravelas eles não viam; era como se não estivessem ali, enquanto os europeus as viam perfeitamente.

Em dado momento, era como se os navios aparecessem do nada na visão dos nativos: puf!, a caravela surgia e eles se assustavam e saíam correndo. Ou seja, eles não conseguiam ver até um certo momento, e a partir dali passavam a enxergar do nada.

Essa história tenta exemplificar uma teoria — sobre a qual ainda há muitas pesquisas e alguns resultados significativos — de que o nosso cérebro tenta dar sentido a tudo. Quando ele não encontra nenhum sentido, precisa ter ao menos algo para associar àquela imagem.

Se vejo uma mancha de café em um prato e não consigo ver nada muito significativo, o cérebro sabe que aquilo é café e que é um prato. Na pior das hipóteses, ele definirá como "uma mancha de café", sem maiores significados, mas reconhecendo os elementos básicos.

Existem teorias que afirmam o seguinte: se o nosso cérebro não for capaz de dar sentido a absolutamente nada do que está vendo — por exemplo, se eu vejo um borrão de café, mas não sei o que é café e não consigo associá-lo a nada —, eu simplesmente não processo aquela imagem, porque o cérebro falha em lhe atribuir significado.

Assim, vejo o prato, mas não vejo o borrão. Somente a partir do momento em que ele consegue dar algum sentido àquilo é que a imagem aparece no nosso campo visual.

Seguindo essa teoria, aquela história contada por gerações de nativos sul-americanos — cuja veracidade histórica não temos como comprovar — pode conter um fundo de verdade.

O que acontecia? Os nativos nunca tinham visto uma caravela, nunca tinham visto aquele formato gigantesco no mar, parecendo um monstro. Por nunca terem visto aquilo, o cérebro não processava a imagem da caravela; eles viam o mar liso, e o cérebro os enganava, ocultando o elemento desconhecido.

A partir do momento em que a caravela se aproximava, ainda que não compreendessem o todo, eles conseguiam reconhecer tecido, corda e madeira — elementos que, individualmente, lhes eram familiares.

Aquilo começava a fazer sentido: não era um monstro, era algo feito de madeira e corda, mesmo que não soubessem exatamente o que era uma caravela. Com isso, o elemento passava a ser processado e ganhava visibilidade.

Essas histórias demonstram o quanto o nosso cérebro depende dessa atribuição de significado a todos os estímulos que recebe. Por mais que eu veja um borrão, ouça um ruído ou tenha uma sensação sem sentido, antes de aceitar que aquilo é totalmente aleatório, o cérebro tenta encontrar algo que se enquadre naquela forma.

Se ele encontrar, nos dará a nítida sensação de estarmos vendo aquilo, ressaltando tais características. Mesmo que uma mancha não mostre perfeitamente o rosto de Jesus como nos livros, ao identificar traços similares, o cérebro realçará essas características para nos dar a completa certeza de que se trata daquilo.

Esse é o fenômeno da pareidolia. Como mencionei, ele faz uso de memórias passadas, experiências, aprendizados, vivências, sentimentos e até de situações emocionais.

Dessa forma, a experiência de uma pessoa com a pareidolia pode ser muito diferente da de outra. Alguém pode enxergar o rosto de Jesus em uma mancha na parede, enquanto outra pessoa pode não ver nada, ou pode ver um boi. Tudo depende da vivência, da experiência e das emoções de cada indivíduo.

O ponto importante em tudo isso é retomar aquele conceito que repito sempre: o nosso cérebro busca eficiência, atalhos e o uso de experiências passadas para ganhar tempo nas análises futuras. No entanto, isso o induz a muitos erros.

Isso nos leva a erros de raciocínio, de pensamento, de análise e de tomada de decisão, podendo resultar em interpretações incorretas daquilo que estamos vendo ou ouvindo.

Portanto, é fundamental ressaltar essas falhas do nosso cérebro: ele nos engana o tempo todo. Antes de acreditar em um fenômeno paranormal ou espiritual, é importante analisar se não estamos caindo em um viés cognitivo, em uma má interpretação gerada por vivências e crenças passadas.

Vale notar que até as nossas crenças e vontades interferem. Se estamos vendo algo ambíguo — que pode parecer o rosto de um anjo, mas não está muito claro —, e acreditamos muito na nossa espiritualidade a ponto de querermos ver um anjo ali, isso certamente interferirá e fará com que o cérebro ressalte ainda mais tais traços.

Por isso, apesar de não ser uma doença nem nada anormal, é importante mantermos os pés no chão para não descambarmos para o fanatismo religioso ou interpretações equivocadas, motivados apenas pelo desejo de ver algo ou por uma leitura errônea do que está ao nosso redor.

 

Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)

 

 



Voltar ao Início do Blog
 

Valorizamos sua privacidade

Meu site usa cookies para melhorar a navegação e personalizar a sua experiência. Ao utilizar o site e os serviços, você concorda com o uso de cookies conforme estabelecido na política de privacidade. Uso cookies para análises de interesses e com base neles desenvolver melhor navegabilidade do site e novos recursos para todos os usuários.

Politica de Privacidade